quarta-feira, 11 de agosto de 2010

“O QUE É VIDA?”: UM RETORNO AO ESTUDO DO SER VIVO - Introdução



O Presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia provinha da Ásia Oriental e era mulher. Chamava-se Chee Li-hsing e os trajes transparentes que usava — encobrindo o que queria encobrir só pelo brilho — davam a impressão de que andava envolta em plástico.
— Eu compreendo que você queira ter todos os direitos humanos — disse ela. — A história também registra momentos em que populações inteiras lutaram para conquistar a plenitude dos direi tos humanos. Mas quais são os que você acha que lhe faltam.
— Uma coisa bem simples, como, por exemplo, o meu direito à vida — afirmou Andrew. — Um robô pode ser destruído a qualquer hora.
— Com o homem acontece o mesmo.
— Sim, mas para que seja executado existem procedimentos legais. E para a minha destruição não há necessidade de processo nenhum. Basta uma ordem, dada por autoridade competente, e estou perdido. Depois... depois...
Andrew fez um esforço desesperado para não demonstrar qualquer sinal de que estivesse implorando alguma coisa, mas se deixou trair por esgares faciais — tão cuidadosamente programados quando foi feito — e pelo tom de voz.
— Na verdade, o que eu quero é ser homem. Venho sonhando com isso há seis gerações de seres humanos.
Li-hsing contemplou-o com a maior compreensão nos olhos escuros.
— A legislatura pode promulgar uma lei que o declare como tal. Querendo, pode até decretar que uma estátua de pedra seja considerada como pessoa humana. Mas a possibilidade de que isso aconteça é tão remota no primeiro como no segundo caso (I. Asimov, O homem bicentenário, 1972).
Andrew é um robô. Neste momento da estória, ele está solicitando ao congresso mundial que o considere humano e, portanto, vivo.  A petição é negada neste momento, mas ocorre-me uma questão, em que base ela é negada? Neste momento Andrew, um robô, é indistinguível de um ser humano na aparência e, como podemos notar pelo texto, no comportamento. Creio que decidir se Andrew é humano ou não é uma questão muito complexa para ser abordada neste estudo. Mas se Andrew pretende ser humano deve antes ser considerado vivo e não me parecem eficientes, mediante a ciência clássica, os critérios para se distinguir algo vivo de algo não-vivo. Assim nas próximas paginas, será apresentada uma discussão sobre o que vem a ser “vida” e suas principais características na ciência contemporânea.
Como vimos na pequena estória acima, a distinção de vida e não-vida é relevante em diversas áreas do conhecimento e ciências dos seres humanos. Saber se um determinado objeto é vivo determina a maneira como vamos lidar com ele e como vamos estudá-lo. Questões técnicas e éticas são determinadas a partir da atribuição de vida a um determinado objeto. A partir da implantação de um novo conceito de vida surgem novos e instigantes problemas a serem resolvidos pela ciência.
Como diferenciar “vida” de não-vida? Pretendemos responder essa questão a partir do ponto de vista da ciência dita holista, sistêmico ou ainda organicista. Usaremos esta concepção por acreditarmos que, diferentemente do modelo clássico, podemos ter uma caracterização mais completa e precisa desta diferença.
A ciência clássica se fundamenta em quatro princípios: o princípio da ordem, o princípio da separabilidade, o princípio da redução, reversibilidade no tempo e o princípio da lógica indutivo-dedutivo-identitária, os quais funcionam num ambiente de certeza e busca pela simplificação da complexidade existente nos fenômenos (MORIN, 2000).  Para a ciência clássica os sistemas complexos podem ser compreendidos pela análise de uma de suas partes, no tempo, e, a partir da compreensão dessa parte, atribuir suas conclusões ao sistema como um todo, compreendendo-se o contexto. Com esse objetivo, Descartes, em 1619, formulou quatro preceitos básicos que fundamentam um método universal para conduzir a razão: evidencia, redução, causalidade, exaustividade. (DESCARTES, 1980). Nesta concepção não há espaço para os fenômenos da “vida”, pelo fato de esses fenômenos não serem passiveis de simplificação. Como os fenômenos relacionados com vida são sempre complexos e irreversíveis, da mesma forma esses fenômenos são caracterizados por sua resistência a serem modificados intencionalmente, o que frustra as tentativas de domínio exercidas pelo cientista clássico.
No presente estudo devemos apontar novas tendências da ciência no que diz respeito às ciências da vida. E, ainda, encontrar alguns dos novos critérios que a ciência contemporânea tem utilizado para estudar a vida e os fenômenos a ela relacionados. A idéia-chave do meu trabalho consiste em expressar esses critérios em termos das três dimensões conceituais: padrão, estrutura e processo. Todos os três critérios são totalmente interdependentes. O padrão de organização, como definido por Maturana e Varela, só poderá ser reconhecido se estiver incorporado numa estrutura física, como definida por Prigogine, e nos sistemas vivos essa incorporação é um processo em andamento, como definido por Baterson e mais tarde por Maturana e Varela. Assim, estrutura, padrão e processo estão inextricavelmente ligados. Pode-se dizer que os três critérios são três perspectivas diferentes, mas inseparáveis do fenômeno da vida. Formarão as três dimensões conceituais de meu trabalho. Essas três dimensões conceituais tem por base o pensamento sistêmico, que significa a captação da totalidade orgânica, una e diversa em suas partes sempre articuladas entre si dentro da totalidade e constituindo esta totalidade.
A seleção do referencial teórico deveu-se à busca de alternativas que fossem mais apropriadas ao tratamento das características inerentes aos sistemas complexos (muitas partes diferentes, conectividade entre as partes, comportamento difícil de gerenciar e prever e impossibilidade de analisar as partes independentes do todo). Desse modo, para compreendê-los, é necessário utilizar um paradigma[*] científico que considere a complexidade do objeto investigado e as impressões do observador sobre esse objeto.
Sendo assim, emprega-se o paradigma sistêmico por associar o observador ao objeto observado. Em outras palavras, associa sujeito e objeto, em contraponto ao paradigma reducionista. Este dissocia o sujeito do objeto, desconsiderando as intervenções do sujeito no objeto investigado. Edgar Morin (1977, p.29) observa que “há uma necessidade histórica de encontrar um método que detecte e não que oculte as ligações, as articulações, as solidariedades, as implicações, as imbricações, as interdependências e as complexidades entre sujeito e objeto.” o paradigma sistêmico introduz uma renovação epistemológica, por trazer uma proposta diferente da estabelecida pelas ciência clássica e moderna, representadas pelos preceitos cartesianos. O enfoque sistêmico direciona a atenção, especialmente, ao estudo dos sistemas complexos. Como exemplo, citam-se os sistemas de natureza psicológica, social e biológica. Esse enfoque deve ser entendido como uma reação à percepção reducionista (cartesiana) de interpretação da realidade. Logo, observa-se que o paradigma sistêmico possui um enfoque que suporta as pesquisas fundamentadas nas Ciências da Complexidade[†], motivo pelo qual é adotando como direcionador para a elaboração deste trabalho.
Utilizarei para este estudo diversas áreas da ciência tais como a biologia, ecologia, medicina, física, química, matemática, cibernética, alem é claro de todo arcabouço teórico da filosofia moderna e contemporânea. Pretendo com isso dar uma maior abrangência ao estudo e, assim, chegar a uma idéia mais precisa do que é vida e dos seus pormenores.






[*] Um paradigma significa um modelo, algo que serve como parâmetro de referência para uma ciência, como um farol ou estrutura considerada ideal e digna de ser seguida. Podemos dizer que um paradigma é a percepção geral e comum - não necessariamente a melhor - de se ver determinada coisa, seja um objeto, seja um fenômeno, seja um conjunto de idéias. Ao mesmo tempo, ao ser aceito, um paradigma serve como critério de verdade e de validação e reconhecimento nos meios onde é adotado. (Kuhn, 1990. p. 9 - 27 e 219 – 24)
[†] As Ciências da Complexidade se dividiram em muitos ramos, os quais tiveram seu desenvolvimento associado, na maioria, a um campo específico da ciência e a objetivos diferenciados. Podem-se destacar: a Cibernética, a Teoria Geral de Sistemas, os Sistemas Dinâmicos, a Teoria do Caos e a Teoria da Complexidade. Todos esses ramos têm como objetivo comum compreender a complexidade existente nos sistemas.


ASIMOV, Isaac. O Homem Bicentenário. Tradução: Agatha M. Auerspeg. São Paulo: Hemus, 1972.
 MORIN, Edgar. LE MOIGNE, Jean-Louis. A inteligência da complexidade. Tradução: Nurimar Maria Falci. São Paulo: Peirópolis,2000.

DESCARTES, Rene. Discurso sobre o método. In: Descartes. São Paulo: ed. Abril, 1980 (Os pensadores)


MORIN, Edgar. O método 1: da natureza da natureza; Tradução: Ilana Heineberg. 2ª edição. Porto Alegre: v. 1, sulina, 1977.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Carl Sagan - Bilhões e Bilhões


Com suas revelações sobre um pequenino mundo embelezado pela musica e pelo amor, a nave Voyager já saiu do sistema solar e se dirige ao mar aberto do espaço interstelar. A uma velocidade de 70 mil quilômetros por hora, projeta-se em direção às estrelas e a um destino com o qual só podemos sonhar. Estou cercada por pacotes do correio, cartas de pessoas de todo o planeta que lamentam a perda de Carl. Muitos lhe dão o crédito por tê-los despertado. Alguns dizem que o exemplo de Carl os inspirou a trabalhar pela ciência e pela razão contra as forças da superstição e do fundamentalismo. Esses pensamentos me consolam e me resgatam de minha dor. Permitem que eu sinta, sem recorrer ao sobrenatural, que Carl vive.


quinta-feira, 6 de maio de 2010

A historia da humanidade como a historia da libertação da mulher.


 

A decida das arvores e o inicio da caçada.[1]

A fêmea do macaco caçador é a responsável pela procriação na espécie e assim como acontece entre os primatas a responsável pela criação (alimentação e guarda). Originalmente, dentro do espaço da floresta no estado de coletor puro, essa criação era feita ao longo do processo de deslocamento pela floreta junto com os demais membros do bando. A fêmea tinha assim um status de liberdade e autonomia equivalente ao do macho.
A fêmea tinha seus próprios meios de conseguir comida, tinha liberdade de movimentação, e o poder de escolher os parceiros. Nos bandos de primatas era a quantidade de fêmeas que escolhiam o macho, que determinava qual dos machos seria o “macho alfa”, essa escolha era feita de acordo com critérios biológicos específicos relacionados a sobrevivência. A relação de fidelidade entre fêmeas e machos era inexistente nos moldes em que hoje compreendemos. Fêmeas trocavam de macho no momento em que encontravam um macho mais apto ou mais atrativo segundo os critérios e as necessidades do ambiente.
Descer das arvores, ou seja a mudança de coletor para caçador, representou um ponto mutação na historia da humanidade. A mudança de meio ambiente e meio de vida provocou uma mudança biológica e comportamental nos macacos caçadores.

Filhotes lerdos e cabeçudos.

Uma comparação em termos de biodesenvolvimento pode ser feita entre o macaco caçador e o chimpanzé. Ao nascer, o cérebro do chimpanzé tem 70% do seu tamanho final, atingindo 100% ao longo do primeiro ano enquanto os bebês humanos, ao nascerem, têm somente 23% da massa cerebral do adulto, não chegando a 100% do tamanho antes de 23 anos de vida[2], dez anos depois da maturidade sexual. Não só o cérebro sofreu um processo de infantilização, outras características também sofreram esse processo chamado de neotenia.
Embora a gestação do macaco caçador leve apenas poucos dias a mais comparada com a gestação de outros primatas. Parece que nascemos ainda como fetos, pois para atingir a mesma condição de outros primatas ao nascer, a gestação humana deveria durar cerca de um ano e meio. Como consequência de uma gestação relativamente mais rápida do que a dos outros mamíferos, ao nascer, os bebês humanos são muito mais frágeis e indefesos do que os filhotes de qualquer outro mamífero, incluindo os primatas. Para Stephen Jay Gould [3]a explicação desse encurtamento da gestação se refere ao tamanho do canal pélvico feminino para o qual o tamanho das cabeças dos bebês está quase no limite.
É claro que esse processo levou alguns milhões de anos e foi gradual. Então gradualmente os filhotes foram ficando cada vez mais frágeis e dependentes de suas mães, tornando a tarefa de criar esses filhotes cada vez mais complexa, demandando cada vez mais tempo e dedicação. Ao mesmo tempo a tarefa de conseguir comida, que antes era feita simplesmente se deslocando pela floresta e pegando o que estava à mão, foi transformada numa caçada que exigia planejamento, coordenação, cooperação e um grande esforço físico alem da dedicação de um grande período de tempo. Essas transformações graduais tornaram impossível conciliar a busca pela comida e os cuidados com a cria. A fêmea estava presa a sua cria impossibilitada de conseguir comida para si e para seu filhote.

O nascimento da fidelidade e o contrato social.

A fidelidade surge da dependência mutua entre os parceiros. Com a impossibilidade de a fêmea exercer as atividades de caça ela se torna completamente dependente, para alimentação e proteção, do macho. Mas a dependência do macho em relação a fêmea é mais sutil, ela esta relacionada a uma certa segurança genética. O processo é mais ou menos esse: a fêmea depende do macho para a alimentação e proteção, sua e do filhote, o macho, por sua vez, precisa que esse filhote seja bem cuidado para que ele sobreviva e seja forte. Existe mais um fator: O macho precisa confiar que esse filhote é realmente seu, porque ele vai despender muito tempo e esforço para alimentar esse filhote e essa fêmea. Nesse ponto as únicas garantias que existem são baseadas na confiança mutua, confiança de que o macho vai trazer comida para a fêmea e o filhote e confiança de que a fêmea não vai copular com outro macho enquanto ele estiver fora.
Também a dinâmica da busca pelo alimento muda, já não é mais possível conseguir alimento sozinho a caçada exige a cooperação de um grupo. Não meramente a presença do grupo mas a cooperação e coordenação desse grupo então o que nos temos é um pacto de cooperação que acaba por fundamentar uma sociedade. Todos os indivíduos de um grupo vivendo em um local cooperando entre si, as fêmeas cuidado dos filhotes e os machos alimentando e defendendo todo o grupo. A dependência mutua cria os laços sociais e a demanda dos interesses do outro passa a ser importante o leva ao desenvolvimento dos comportamentos éticos e as normas de convivência sociais.
Neste ponto nos temos um impasse, nenhuma das características observadas nas sociedade acima descrita é baseada num instinto original do primata, tudo isso teve de ser desenvolvido muito rapidamente, muito mais rapidamente que um desenvolvimento biológico pode se processar, então esse desenvolvimento só pôde ocorrer no nível cultural, que tem uma precedência mais baixa que o instinto no padrão de comportamento do macaco caçador. Então para reforçar esse padrão comportamental, não instintivo, mas necessário para sobrevivência da espécie nesse novo ambiente, desenvolveram-se reforços culturais como a religião, as leis e as instituições, para manter esse padrão social apesar da pressão exercida pelos instintos originais de coletor. Manter esse padrão foi essencial para a sobrevivência da espécie nesse ponto da evolução humana.
Assim temos uma incerteza conceitual: onde estaria o instinto do macaco caçador neste ponto da evolução? Até aqui temos comparado o instinto do macaco caçador com o dos primatas coletores típicos mas o processo de consolidação do comportamento na forma de instinto é continuo e evolui junto com os demais processos mas é difícil determinar como interagiram os novos comportamentos transmitidos culturalmente e os velhos instintos primatas frente a uma relação mutante   com o ambiente e quais deles se consolidaram como instintos do macaco caçador e quais deles permaneceram apenas no nível cultural[4].
No momento em que o macaco caçador fixa sua moradia num território determinado deixando de ser nômade e dando inicio a sociedade como a conhecemos hoje, a prisão da mulher chega ao seu auge e, portanto o inicio de seu declínio.

A tecnologia e a sociedade facilitando o trabalho.

A sociedade urbana hierarquizada de a mais ou menos 10.000 anos começou a resolver os problemas do macaco caçador. Queiramos ou não admitir nós vivemos de uma maneira muito melhor do que vivíamos a 10.000 anos, do ponto de vista biológico ou seja temos melhores condições de ampliar os números da espécie. Até esse momento toda a capacidade intelectual do macaco caçador estava voltada para suprir o equivalente a base da pirâmide de necessidades[5] de Abraham Maslow, ou seja, necessidades fisiológicas (básicas), tais como a fome, a sede, o sono, o sexo, a excreção, o abrigo[6]. Então com o desenvolvimento da sociedade resolver essas demandas se tornou cada vez mais simples.
A partir desse ponto com os problemas básicos “resolvidos” começam a surgir outras necessidades[7] oriundas principalmente do agrupamento e da especialização do trabalho. Especialização essa que proporciona uma melhor distribuição da mão de obra do grupo, possibilitando uma maior liberdade para a fêmea do macaco caçador. Vários desenvolvimentos tecnológicos contribuíram para essa maior liberdade. O principal desenvolvimento tecnológico que resolve um grande problema do macaco caçador é a agricultura intensiva, isso reduz significativamente a necessidade de caça propriamente dita, mas não sua eliminação, colocando o macho mais presente dentro do agrupamento o que proporciona um desenvolvimento cultural ainda maior.
Essa progressão tecnológica e social segue seu desenvolvimento de forma cada vez mais acelerada ao longo da historia proporcionando um apoio social na criação do dos filhotes o que da uma liberdade para a fêmea cada vez maior.

A virada da maré e a pílula.

As implicações dessa libertação inicialmente tiveram reflexo no que poderíamos chamar de subjetividade feminina, um olhar de si mesma e o surgimento da fêmea como figura, como ícone, como por exemplo no Egito antigo. Um ponto bastante interessante de se notar é o processo que ocorreu no império romano onde a figura da mulher ganha importância dentro da sociedade e mesmo um poder, velado mas ainda sim um poder.
Porem com a queda do império e um retrocesso nos processo de expansão urbana e uma redução do apoio social a liberdade feminina sofre um revés. Ao longo da idade média o processo urbano foi retomado e a mulher começou a ganhar um papel social mais forte neste momento, no auge da idade media, e portanto no seu final, surge o amor. Culturalmente nos poderíamos considerar o surgimento do amor como uma equiparação entre homens e mulheres, neste momento os sentimentos femininos começam a importar, mesmo estando submetidos aos moldes culturais de fidelidade surgidos na pré-história, apesar de a pressão da criação dos filhos ter se reduzido extremamente.
Em meados do século 20, após várias conquistas nos campos político, artístico e social, surge o ponto de virada para a liberdade feminina, o desenvolvimento de um método contraceptivo eficiente. Esse método deu o poder de decisão de quando procriar, isso aliado a um sistema social que da total suporte na criação dos filhotes, sendo possível a uma mulher ter filhos e não se envolver em sua criação, isso não somente nas classes sociais mais elevadas mas em todas as classes, restaurou as mulheres a liberdade perdida.

De volta para a floresta e a liberdade reconquistada.

Observando esse processo desde o surgimento da civilização até hoje e comparando com o tempo decorrido desde que o macaco caçador desceu das arvores vemos que o processo civilizatório é uma coisa recente, mas em nosso entendimento ele é na verdade um retorno ao estado de coletor. Houve um retorno a coleta ao invés de uma generalização da caçada. Os processos de obtenção de alimento e a dinâmica social hoje são muito semelhantes aos da floresta. Com a especialização do trabalho a linha que liga o trabalho a alimentação se torna muito extensa de forma que hoje ela não pode se percebida como uma linha direta, o trabalho é muito mais do que apenas obtenção de comida. A alimentação muito semelhante a simples coleta do alimento.
Podemos dizer que alimentação não é um fator determinante em nossa vida hoje mas, fatores como alimentação e procriação despertam nossos instintos mais ancestrais e com esse retorno a um estado muito semelhante ao estado original na floresta provoca profundas alterações no comportamento dos indivíduos suscitando um retorno na media do possível aos velhos hábitos. As mulheres não estão em absoluto prezas a criação dos filhotes nem necessitam do apoio dos machos para tal, demonstram isso os crescentes números de mães solteiras e as mulheres que optam por não se casar e manter uma flutuação de parceiros, ou ainda a maneira como os casamentos têm uma vida bastante curta com a fêmea trocando de parceiro assim que encontra um “melhor” do que o que tem. Não que os machos já não o fizessem mas agora as fêmeas voltaram a ter a liberdade de faze-lo. A mulher retorna assim para um estado onde tem iguais condições, está livre.
As profundas modificações sociais ocorrendo hoje são fruto das alterações da dinâmica da própria sociedade decorrente da interação entre a espécie e o meio em que vive. Essas mudanças não podem ser encaradas como boas ou más, em si, elas devem sim ser compreendidas, na medida em que são o resultado do desenvolvimento da espécie.


[1]De certa forma essa é uma continuação do artigo anterior, então, alguma informação extra pode ser obtida no mesmo.
[2]           MORRIS, Desmond. O macaco nu: um estudo do animal humano. Trad: Hermano Neves. 8ª Ed. – Rio de Janeiro. Record.  pg 26.
[3] GOULD, Stephen J. Darwin e os grandes enigmas da vida. São Paulo : Martins Fontes, 1987.
[4]           Já nos referimos a esse assunto num artigo anterior chamado “instinto”.
[5]           Existem muitas criticas a pirâmide de necessidades de Maslow principalmente com relação a hierarquização das necessidades. Neste estudo usamos a pirâmide de  Maslow num sentido temporal ou seja num período pré-histórico a plena realização do homem se dava ao suprir as necessidades mais básicas da pirâmide e com o passar do tempo mais necessidades foram sendo acrescentadas porem sem que houvesse uma hierarquia entre elas. O que a pirâmide de  Maslow representa é as necessidades do homem hoje.
[6]           Maslow, A. H. (1954). Motivation and personality. New York: Harper.
[7]           Necessidades de segurança, que vão da simples necessidade de sentir-se seguro dentro de uma casa a formas mais elaboradas de segurança como um emprego estável, um plano de saúde ou um seguro de vida.