sábado, 12 de dezembro de 2009

Gênesis



No princípio... Pequenos animais insetívoros correndo por toda parte num ambiente pululante de vida. A partir desse cepo insetívoro desenvolveram-se dois novos tipos de mamíferos: os carnívoros e os herbívoros. E a partir desses ramos desenvolveram-se espécies muito especializadas em seus ambientes específicos, exímios caçadores e excelentes pastores. Porém, nas florestas do mundo ainda sobreviviam os insetívoros. Eles, por sua vez, desenvolveram-se e alargaram sua dieta deixaram de ser exclusivamente insetívoros, mas sim coletores aproveitadores das oportunidades que a natureza lhes ofereceria. Desses pequenos animais desenvolveu-se o ramo dos primatas. Nas florestas luxuriantes que se estendiam da África Central ao Sudoeste Asiático existia um ambiente perfeito para o desenvolvimento desses animais extremamente adaptáveis, surgindo assim os grandes símios.
Nesse paraíso, os símios tiveram seu apogeu. Porém, como acontece com todo paraíso, eles foram expulsos. Metaforicamente, é claro, pois os grandes símios ainda vivem nas florestas da África Central e do Sudoeste Asiático. Há cerca de quinze milhões de anos uma mudança climática afetou essa extensa área de floresta reduzindo o ambiente dos símios, Forçando-os a uma série de “decisões” [1]. A primeira delas, e talvez a mais importante, foi feita entre permanecer na floresta ou empreender uma mudança arriscada para a savana para competir com os caçadores ou os pastores. O símio do qual descendemos escolheu o risco. Trataremos dele agora. Os símios que escolheram a floresta não cessaram de ter sua população diminuída desde então.
Convém, antes de iniciarmos nossa aventura, enfatizar alguns esclarecimentos. “Só poderemos adquirir uma compreensão objetiva e equilibrada da nossa extraordinária existência se lançarmos um olhar duro sobre as nossas origens e estudarmos os aspectos biológicos do atual comportamento da nossa espécie” [2]. Até esse ponto partilhamos nossos caminhos evolutivos com os outros grandes primatas. Porém, a partir de agora o caminho é só nosso e isso é um fator primordial para compreender o comportamento do primata caçador. Tomaria muito tempo enunciar as provas reunidas na historia da ciência a respeito da evolução do homem, então nos vamos nos limitar às conclusões resultantes dos trabalhos dos “paleontólogos esfomeados-de-fósseis e dos fatos colecionados pelos pacientes etólogos espreitadores-de-macacos” [3].
A primeira grande dúvida do primata caçador diz respeito à alimentação. Na savana só haviam duas opções viáveis até então, tornar-se um caçador e competir com os grandes felinos e caninos ou tornar-se pastor e competir com os outros pastores e ainda fugir dos felinos. Na floresta original o primata caçador não tinha sua alimentação exclusiva a base de vegetais e insetos, ela incluía também pequenos animais indefesos e ovos, por outro lado sua adaptação a uma alimentação exclusivamente vegetariana seria extremamente complexa, competir com os pastores será impossível. Decisão tomada, resta saber que tipos de caçador seriam. Competir diretamente com os grandes caçadores exigiria uma adaptação extensa de garras, dentes, pernas: um tipo de macaco-gato ou macaco-cão. Existem poucos indícios da existência dessa tentativa mal sucedida. Restou então a opção de ser um tipo diferente de caçador, tivemos que nos tornar assassinos calculistas.
Às vezes quando se conta uma história fica uma certa impressão que os acontecimentos ocorreram um após o outro, mas quando falamos de evolução temos que ter em mente que os processos acontecem em paralelo e pequenas modificações estimulam outras no processo contínuo de desenvolvimento.
Desenvolvemo-nos essencialmente como primatas de rapina. Por isso somos únicos entre os símios, “uma grande transformação desse gênero produz um animal com dupla personalidade” [4]. Ainda não abandonamos os velhos hábitos enquanto avançamos com grande vigor na aquisição das novas características. Todos os seus hábitos sociais, familiares e sexuais começaram a mudar. Todo seu corpo foi projetado para viver entre árvores e de repente (em termos evolutivos) foi jogado num ambiente onde só poderia sobreviver transformando-se num assassino calculista colecionador de armas. Nosso objetivo é analisar como isso ocorreu e como afetou o comportamento do homem macaco desde então.
Para esse fim acreditamos que a melhor maneira seria analisarmos e compararmos inicialmente as características do que poderíamos chamar de carnívoros puros e dos coletores puros e verificar quais características são encontradas no homem, de que forma e com que peso.

Carnívoro puro
Coletor puro
Primata caçador
Separação motivacional entre caça e comida
Não separação entre busca e comida
Separação motivacional entre caça e comida
Armazenamento de comida
Não armazenamento
Armazenamento de comida
Períodos de jejum e super-alimentação alternados
Alimentação continua
Períodos de jejum e super-alimentação alternados
Partilha de comida
Não partilha de comida
Partilha de comida
Cuidado com as fezes
Nenhum cuidado com fezes
Cuidado com as fezes
Inibição de ataque dentro da própria espécie
Comunidade coesa
Inibição de ataque dentro da própria espécie, Comunidade coesa
Territorialista
Nômade
Territorialista
Cooperatividade
Não cooperação
Cooperatividade
Pulgas
Sem pulgas
Pulgas


Carnívoro puro:
Sentidos: voltado excepcionalmente para o olfato, audição apurada, olhos especializados em movimento, sem cores. Aparato físico: extraordinários corredores velocistas ou fundistas. Armas naturais: dentes e garras.
Ø O ato de matar tem seu próprio reforçador[5], separado do reforço alimentar, tornando o a busca pela presa um fim em si mesmo e precisa ser satisfeito com atividade de caça. Exemplo: gatos domésticos que mesmo bem alimentados saem a noite em busca de presas que em geral são desprezadas como alimento.
Ø Costumam armazenar comida, enterrando ou colocando em cima de árvores ou levando para o refúgio. Exemplo: leopardo, que coloca animais abatidos em galhos de árvores para posterior alimentação.
Ø Podem suportar grandes períodos de jejum seguido de super alimentação. Exemplo: depois de um período de jejum um lobo pode comer até um quinto de seu peso.
Ø A partilha da comida é comum em diversas espécies, principalmente nas que formam grandes bandos. Exemplo: os cães selvagens africanos regurgitam comida para os indivíduos que não participaram da caçada.
Ø Como suas fezes são extremamente malcheirosas requerem um cuidado especial, são cuidadosamente enterradas ou os indivíduos se deslocam grandes distâncias para defecar. Exemplo: as mães comem as fezes das crias para manter o refúgio limpo.
Ø Existe uma competição na hierarquia social. Tem uma fortíssima inibição de utilizar seu equipamento de caça contra indivíduos da mesma espécie. Exemplo: uma luta mortal entre dois indivíduos muito bem armados poderia resultar na morte ou inutilização de ambos indivíduos, o que não seria vantagem para ninguém.
Ø Em geral fazem uso de um grande território permanente de caça, que defendem e patrulham. Exemplo: existe uma considerável agressividade contra indivíduos isolados, que são apanhados fora do próprio território, que pode ser até fatal.
Ø O método de caça varia de espécie para espécie mas em geral existem manobras complexas, coordenação e uma cooperatividade, ou seja, um envolvimento dos indivíduos do grupo na realização da caçada, onde a participação de cada um é pondo fundamental na realização da tarefa. Exemplo: os leões realizam uma emboscada onde alguns indivíduos assustam a presa e a guiam para o local onde o restante do bando aguarda.
Ø Pulgas depositam seus ovos não no corpo de um hospedeiro, mas em meio a detritos e nas paredes de seus abrigos. Assim, quando eles completam o ciclo de crescimento, voltam a infestar o hospedeiro.
Coletor puro:
Sentidos: voltado mais para a visão, com cores, audição sem especialização, olfato: pouco desenvolvido, paladar desenvolvido. Aparato físico: mais acrobático do que atlético. Armas naturais: desprovido.
Ø A busca pela comida e o ato de comer tem os mesmos reforçadores já que a comida se encontra com facilidade e não oferece nenhuma resistência.
Ø Não há necessidade de armazenar a comida, já que ela se encontra a disposição sendo apenas uma questão de a localizar.
Ø A alimentação se faz ao longo do dia num contínuo mastigar.
Ø Todo o grupo se encontra na área de alimentação e cada individuo se alimenta sem a necessidade de intermediários, com exceção dos filhotes.
Ø Os coletores puros não demonstram nenhum cuidado com as fezes devido a estilo de vida nômade não há interesse em manter o local de repouso limpo já que em seguida ele será abandonado e a região não corre o risco de se tornar excessivamente suja.
Ø Os membros do grupo permanecem o tempo todos juntos, eles se alimentam, fogem e se locomovem juntos formando uma comunidade coesa onde cada individuo sabe o que o outro esta fazendo.
Ø Estão constantemente em movimento, o que varia de alguns metros a grandes distâncias, mas sem se ater a um território especifico. O encontro com outros grupos costuma ser agressivo, não relativamente ao território, mas à utilização de uma fonte de comida no momento.
Ø Apesar da estrutura social coesa, hierarquizada e competitiva não existe cooperatividade entre os indivíduos do grupo já que a atividade de alimentação não exige nenhuma complexidade ou coordenação. Existe sobretudo competição e dominação no nível social, já que a alimentação é uma atividade das mãos e da boca.
Ø Os primatas são infestados com todo tipo de piolhos e parasitas mas nunca tem pulgas devido ao seu ciclo de vida nômade quebrar o ciclo de transmissão das pulgas. Se eventualmente uma pulga se aloca em um primata ao seguir seu ciclo de vida colocando os ovos nos solo uma vez esse ovos eclodindo não encontrarão o primata para o reinfestar.
Primata caçador:
Ao fazer a comparação entre caçadores puros e coletores puros foram usadas características típicas desses dois grupos. É de se esperar que de ambos os lados hajam exceções e a maior das exceções dos dois grupos é o próprio primata caçador: um hibrido de caçador e coletor. Veremos então como estas duas características se combinaram para formar este animal.
Sentidos: voltado mais para a visão com cores (impróprio para viver no chão), audição sem especialização (insuficiente para caçar), olfato: pouco desenvolvido, paladar desenvolvido. Aparato físico: mais acrobático do que atlético (impróprio para longas corridas e ou arrancadas velozes). Armas naturais: desprovido. Personalidade mais competitiva que cooperativa, pouco habituado a planejamento. Não fosse um excelente cérebro e uma inteligência geral mais desenvolvida do que a dos carnívoros rivais seria uma competição perdida. Mas ainda assim tínhamos um coletor caçando, e para que isso desse certo muitas mudanças tiveram que ser realizadas com o correr de um longo período de tempo. Talvez a principal delas seria a mudança do cérebro juntamente com um alto grau de neotenização, que devido a sua importância deverá ficar para um próximo artigo. Vamos analisar as mudanças nas demais características da transição de coletor para caçador. Essas características recentemente adquiridas, por força de sobreviver a um novo estilo de vida, têm que lutar para prevalecer sobre uma tendência a agir como um primata regular.
Ø Tiveram de ser desenvolvidos motivadores[6] para os diferentes processos necessários para a alimentação, já que a obtenção do alimento e seu preparo são processos longos até que de fato seja ingerido.
Ø Iniciou-se a o armazenamento de comida.
Ø A alimentação continua não é mais possível, ocorre uma adaptação para uma alimentação que alterna períodos de jejum.
Ø Com a planificação da caçada houve uma divisão nas tarefas referentes a obtenção de comida. Criou-se a necessidade de partilhar a comida com os membros do grupo que não participaram da caçada, como filhotes e fêmeas a quem ficou atribuída toda a responsabilidade de cuidar dos filhotes de crescimento lento. Mas em compensação o primata caçador é único primata que realmente conhece o pai.
Ø Com a habitação fixa a defecação teve de se tornar criteriosa com uma destinação adequada às fezes.
Ø Teve de dominar o instinto primata de nunca se afastar do grupo, teve de partir audaciosamente em pequenos grupos ou mesmo sozinho pra explorar o mundo.
Ø Como os carnívoros, o primata caçador teve que escolher um território fixo para maximizar suas possibilidades de caçada.
Ø Para o desenvolvimento da habilidade de caça em grupo, a comunicação e a cooperação tiveram de ser fortemente desenvolvidas, tornando as expressões vocais e faciais muito mais complicadas. Com o manejo de armas artificiais, teve de desenvolver inibição de ataque dentro do grupo. Para defender o território acentuou-se a agressividade contra grupos rivais.
Ø Ao fixar moradia o primata caçador tornou-se um hospedeiro ideal para as pulgas. Tão ideal que tem uma espécie exclusiva que só infesta o primata caçador.
O primata caçador é um animal único. Híbrido de dois gêneros, ele se estabelece sem esquadrar-se em nenhum padrão preestabelecido de comportamento: não é um coletor puro, não é um caçador puro. Qualquer tentativa de o enquadrar em um desses esquemas, como por exemplo, a primatologia comparada[7], levará a uma conclusão no mínimo parcial, visto que de fato existem similaridades, porém existe uma gama de aspectos que ficariam de fora dessa conclusão. Dessa forma, como espécie, o primata caçador está sem par no reino animal, portanto não há termo de comparação nem padrão de normalidade que possa ser estabelecido.
É uma grande história a aventura da evolução de um pequeno insetívoro nas florestas a um grande primata que dominou o mundo e alterou a dinâmica da natureza. Seu comportamento e sua morfologia foram sendo alterados à medida que o ambiente mudava à sua volta e também à medida que sua relação com esse ambiente ia sendo alterada. No atual momento dessa história, está em curso uma alteração drástica, tanto ambiental, provavelmente causada pelo primata caçador, como do comportamento desse primata caçador. Essas alterações se devem principalmente às mudanças na relação desse primata caçador com os outros membros de sua espécie. Prever qual o destino dessas mudanças está fora de qualquer possibilidade. Nos próximos artigos analisaremos mais detalhadamente algumas das mudanças que ocorreram no processo de evolução do macaco caçador e que ficaram de fora desse.
Bibliografia:
MORRIS, Desmond. O macaco nu: um estudo do animal humano. Trad: Hermano Neves. 8ª Ed. – Rio de Janeiro. Record.

[1] É difícil fugir de uma linguagem teleológica quando falamos de biologia já que essa metáfora teleológica é didaticamente mais palatável ao grande público. A teleologia não passa de conceito regulador do uso do intelecto humano: uso oportuno e necessário pelo fato de que o intelecto humano encontra limites bem precisos na explicação mecânica do mundo, sendo, pois, levado a recorrer a uma consideração complementar. Esta, contudo, nunca pode valer como explicação, e sua única função é ajudar a procurar as leis particulares da natureza (Kant, Crít. Juízo ,§ 78), assim mantemos a teleologia como metáfora, mas enfatizamos o fato de que os eventos aqui narrados só podem ser explicados como causa e efeito se analisados de trás para frente, e que não existe nenhum indicio de que a natureza traça objetivos ou que pretenda atingi-los.
[2] Morris, Desmond. pg19
[3] Morris, Desmond. pg14
[4] Morris, Desmond. pg15
[5] Reforço: Apresentação do estímulo que desencadeia a reação incondicionada, em lugar de estímulo condicionado (dicionário Houaiss)
[6] Motivação: conjunto de processos que dão ao comportamento uma intensidade, uma direção determinada e uma forma de desenvolvimento próprias da atividade individual (dicionário Houaiss)
[7] Primatologia comparada: É a ciência que estuda o comportamento humano comparado ao comportamentos dos demais primatas superiores.

domingo, 6 de setembro de 2009

Das cavernas ao cinema


Quase sempre questões sérias e profundas são evocadas por perguntas simples. Como por exemplo, como pode uma pessoa compreender uma representação bidimensional de um cavalo como este?:

Que papel poderia ter essa capacidade na vida dos seres humanos. A questão da imagem não é uma questão de arte, ou eu deveria dizer que não é apenas arte. Ao afirmar que a questão da imagem é uma questão de arte eu estaria cometendo o mesmo erro de muitos estudiosos antes de mim, eu estaria segmentando o conhecimento humano e estaria segmentando o próprio ser humano. Para solucionar a questão da imagem é preciso como sempre abordar a questão por múltiplos aspectos. Relegar esta questão ao campo da arte ou da estética seria como procurar pela mente usando um bisturi ou um microscópio.

Em nosso mundo atual, a imagem, ou a representação gráfica, tem um papel fundamental e desempenha diversas funções em nossa civilização:

Entretenimento, Informação, Comunicação, e Arte


Tão profunda é essa importância que chega passar despercebido o fato de estarmos cercados por representações gráficas o tempo todo, onde quer que estejamos, do momento de nosso nascimento ao momento em que morremos.

Essa importância nos suscita uma questão prenhe de significado. Como pode uma coisa cujo significado só existe em minha mente se desenvolver num ambiente extremamente exigente de atenção e cuidados? Como algo tão biologicamente inútil pode tomar essas proporções?

Hoje é fácil atribuir importância biológica a representações gráficas, você pode ser facilmente morto por ignorar ou desconhecer um sinal gráfico:


Mas nem sempre foi assim. Houve uma época de nossa história em que imagens tinham absolutamente nenhum significado, visto que elas não existiam. Podemos afirmar que nossa espécie, ou seja, homo sapiens, tem cerca de 150.000 anos de idade e desde então houve muitas poucas alterações em nossos corpos. Porém somente nos últimos 30.000 anos surgiram representações gráficas do que quer que seja. Mas mesmo há 30.000 anos a importância biológica da representação gráfica é nula. No entanto, a despeito de sua aparente inutilidade biológica, de fato elas existem:






Ao descobrir por que há 30.000 anos o homem teve essa explosão de criatividade e de repente começou a desenhar talvez entendamos como as imagens ganharam a importância que têm e que importância de fato elas têm. O primeiro especialista de arte de caverna e o primeiro a propor um significado a essas pinturas foi o sacerdote francês Henri Breuil. Ele propôs que essas figuras representavam caçadas, e aparentemente essa é uma boa explicação, já que os desenhos representam em sua maioria animais como: bisões, renas e cavalos. No entanto, com o passar dos anos essa explicação começou a encontrar obstáculos. O primeiro deles foi o de que se essas pinturas representavam seus sucessos nas caçadas, porque então elas eram feitas nos pontos mais inacessíveis das cavernas? Não deveriam ser feitas onde pudessem ser vistas com facilidade? Mas o argumento esmagador foi uma evidência material. Ao escavar o fundo dessas cavernas percebeu-se que os restos das caçadas não eram dos animais representados nas figuras, esses animais representados não pertenciam a sua dieta habitual. E enfim a idéia da representação de caçadas caiu por terra.

Talvez para encontrar a resposta para essa questão devamos nos adiantar um pouco na história e procurar por pintores de cavernas que não estejam extintos, mas infelizmente isso não é possível. Contudo, na África do sul, nas montanhas Drakensberg foram encontradas pinturas que não datam de milhares de anos, mas sim de menos de 200 anos, feitas por um povo que ainda existe os SAN (bosquímanos). Porém temos um problema: eles não vivem mais nessa região. Eles foram expulsos pelos colonizadores da África e vivem hoje nas planícies do Kalahari na Namíbia, que fica a milhares de quilômetros da montanha mais próxima, onde a coisa mais dura que eles podem encontrar é madeira, então a cultura da pintura morreu junto com os pintores. Felizmente, o colonizador alemão Wilhelm Bleek realizou uma série de entrevistas com os remanescentes do povo que vivia nas montanhas no início do século XX. E o professor da universidade de Witwatersrand, David Lewes Williams, ao analisar as pinturas dos bosquímanos e as anotações de Bleek, formulou a teoria que hoje é amplamente aceita entre os arqueólogos. De que esse desenhos representam contatos com o que os bosquímanos chamam de mundo espiritual. Essa teoria é corroborada não só pelas pinturas em si, que contém detalhes que não poderiam ser explicados de outra forma, mas também por evidências mais que inquestionáveis que dizem respeito a própria arquitetura do cérebro.

Experiências realizadas pelo Dr. Dominic Ffytche em Londres no Instituto de Psiquiatria demonstram a capacidade ou a característica do cérebro, que sob certas circunstâncias cria determinados tipos de estados alterados de consciência e percepção. Alguns estados em particular nos são particularmente interessantes visto que são provocados, por exemplo, por ausência de luz durante um longo período, musica rítmica, luzes intensas na escuridão, canções ou orações repetidas muito rapidamente por logo período de tempo. (Para maiores informações sobre este assunto consulte o artigo história natural das visões neste site).

As imagens, as representações gráficas, em seu início tinham um significado religioso, e assim permaneceu até hoje. Porém, a partir da revolução da imprensa a imagem ganhou uma popularização, para usar o termo da época “vulgarização”. Com tudo, a imagem pode ter exercido uma influência ainda maior em nossa civilização.

O que começou a 30.000 anos, terminou da mesma maneira repentina e inexplicável a 12.000 anos, deixando os arqueólogos intrigados por anos. E a resposta veio da agricultura. Os intrigados cientistas começaram a pesquisar o passado genético da variedades de trigo e descobriram que o trigo que cultivamos vem de uma montanha na Turquia, uma montanha que fica a 32km de uma certa colina. Do mesmo período em que datam as últimas pinturas encontradas, data um estranho monumento, uma série de círculos de pedra como o Stonehenge, só que três vezes mais antigo, no topo de uma colina. Um monumento de tamanha magnitude, onde a própria colina é artificial, que seriam necessários milhares de trabalhadores por um longo período de tempo para erguê-lo. E neste monumento, talvez o mais antigo, está a resposta para o fim das pinturas nas cavernas. Suas pilastras estão cobertas de desenhos e representações do mesmo tipo das que eram encontradas nas cavernas e que só podem ser apreciadas à noite e com a iluminação de uma tocha. Provavelmente o trigo começou a ser cultivado para alimentar milhares de trabalhadores envolvidos na construção monumental, dando início assim ao processo que culminou na civilização que temos hoje.

Algo que aparentemente era simplesmente uma questão de estética ou arte na verdade é algo que faz revelações profundas sobre a constituição e o desenvolvimento do próprio homem, e que só puderam ser esclarecidas quando abordamos a questão a partir de diversos pontos de vista, tais como: arqueologia, biologia, fisiologia, religião, sociologia, agricultura. E não apenas do ponto de vista da arte.

Cássio Silveira Gomides 27/10/2008

referencia:
BBC - How Art Made the World (2005)
BBC - Como A Arte Fez O Mundo (BR)
Programa Dois - O Dia em que as Imagens Nasceram

terça-feira, 14 de julho de 2009

Deus, Sonho ou Delírio?



Acabei de assistir dois documentários com Richard Dawkins, o cara do “O Gene Egoísta”, o rottweiler de Darwin. Os documentários são “The Root of All Evil” e “The Enemies of Reason”. Esses documentários demonstram como a religião e as diversas manifestações da superstição e da irracionalidade são fonte de grande parte dos males existentes em nossa civilização. É uma visão radical com certeza, mas não quer dizer que seja uma visão equivocada. Esses documentários são baseados em seu livro “Deus, um Delírio” laçado em 2006.
Nas páginas 212 e 213 de seu livro, Dawkins resume o que ele chama de “o argumento central de meu livro.” Assim segue:
1. Um dos maiores desafios para o intelecto humano foi explicar como o complexo e improvável aparecimento do design surgiu no universo.
2. A tentação natural é atribuir o aparecimento do design a um design verdadeiro.
3. A tentação é uma falsidade porque a hipótese do projetista remete imediatamente ao problema maior de quem projetou o projetista.
4. A explicação mais engenhosa e poderosa é evolução de Darwin através de seleção natural.
5. Nós não temos uma explicação equivalente para a física.
6. Nós não deveríamos renunciar a esperança de uma explicação melhor que surja na física, algo tão poderoso quanto o Darwinismo é para biologia.
Historicamente violências extremas têm sido perpetradas em nome da religião e de forma alguma essa violência deixa de encontrar um modelo na religião tradicional e esse modelo é o próprio Deus. “O Deus do Antigo Testamento é sem dúvida o personagem mais desagradável de toda ficção. Ciumento e orgulhoso; mesquinho, injusto, maníaco controlador implacável, vingativo, sedento de sangue, misógino, homofóbico, racista, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalomaníaco…”[1] e esse tem, aparentemente, sido o legado de Deus aos homens. Porque como ele mesmo disse “façamos homem a nossa imagem e semelhança”.
Bom. Esse é o Richard Dawkins, ele não é conhecido por sua flexibilidade e sua visão ampla do mundo. Errado ele não está, mas sem um “mas” não haveria motivo para eu fazer um texto. A idéia, que Dawkins defende apaixonadamente, de que devemos abandonar radicalmente Deus e toda e qualquer forma de superstição é uma idéia bastante óbvia se encararmos a coisa de um ponto de vista meramente social ou cientifico, ou seja, concreto. Contudo esses não são os únicos aspectos a serem analisados quando temos em pauta qualquer assunto relacionado aos seres humanos. Seres humanos acreditam ou deixam de acreditar por algum motivo.
Ao nascer o ser humano é um animal incompleto (para o futuro esperem um texto sobre neotenia) principalmente seu cérebro se encontra num estagio primário de formação, praticamente apenas 25% formando. Então no desenvolvimento do pensamento, que ocorre concomitantemente ao desenvolvimento do próprio cérebro, o ser humano, segundo Piaget[2], passa por quatro estágios:
· 1º período: Sensório-motor (0 a 2 anos)
· 2º período: Pré-operatório (2 a 7 anos)
· 3º período: Operações concretas (7 a 11 ou 12 anos)
· 4º período: Operações formais (11 ou 12 anos em diante)
O segundo estágio é particularmente interessante ao nosso estudo e vamos caracterizá-lo melhor. É nesta fase que surge a capacidade de substituir um objeto ou acontecimento por uma representação. Esta substituição é possível, conforme Piaget, graças à função simbólica. Neste estágio a criança já não depende unicamente de suas sensações, de seus movimentos, mas já distingue um significador (imagem, palavra ou símbolo) daquilo que ele significa (o objeto ausente). Assim este estágio é também conhecido como o estágio da Inteligência Simbólica.
A criança deste estágio é egocêntrica, centrada em si mesma, e não consegue se colocar, abstratamente, no lugar do outro, não aceita a idéia do acaso e tudo deve ter uma explicação, já pode agir por simulação, possui percepção global sem discriminar detalhes e deixa-se levar pela aparência sem relacionar fatos. Podemos dizer que a criança e egocêntrica da sua maneira, ou seja, implica a ausência da necessidade, por parte da criança, de explicar aquilo que diz, por ter certeza de estar sendo compreendida. Da mesma forma, o egocentrismo é responsável por um pensamento pré-lógico, pré-causal, mágico, animista e artificialista. O raciocínio infantil não é nem dedutivo nem indutivo, mas transdutivo, indo do particular ao particular; o juízo não é lógico por ser centrado no sujeito, em suas experiências passadas e nas relações subjetivas que ele estabelece em função das mesmas. Os desejos, as motivações e todas as características conscientes, morais e afetivas são atribuídas às coisas (animismo). A criança pensa, por exemplo, que o cão late porque está com saudades da mãe. Por outro lado, para as crianças até os sete anos de idade, os processos psicológicos internos têm realidade física: ela acha que os pensamentos estão na boca ou os sonhos estão no quarto. Dessa confusão entre o real e o irreal surge a explicação artificialista, segundo a qual, se as coisas existem é porque alguém as criou.
A psicologia evolutiva e a embriologia demonstram um paralelo entre a evolução do indivíduo e a evolução da espécie. E coloca o estágio Pré-operatório da espécie no período de 200 mil A.C. - 600 A.C. Esse foi o período onde ocorreu a maior intensidade de crenças religiosas, Panteístas ou Politeístas e também o surgimento das bases de todas as grandes religiões predominantes nos dias de hoje. Nunca se tomou conhecimento de que tenha havido algum grupamento humano que não tivesse sua religião. Esse foi também o período de desenvolvimento científico mais lento da história, principalmente em relação ao tempo que durou. Não acredito que alguém discorde disto sem apelar para lendas do tipo Atlântida ou Lemúria. Desse modo notamos a prevalência do Pensamento Mágico no homem primitivo, tal como uma espécie de pensamento pré-lógico, onde as fronteiras entre o real e o irreal são demasiadamente imprecisas. Tal Pensamento Mágico está ainda bastante presente em adultos carentes de um socorro imediato às suas angústias e impotências. Está bem sabido que esta não é a maneira habitual de pensar e de proceder do homem adulto contemporâneo. Este ser deveria pautar sua conduta pelos princípios que regem o Pensamento Lógico ou Pensamento Reflexivo.
Segundo Piaget, “reflexão é como um pensamento de segundo grau que implica na representação de uma representação de ações possíveis.”, ou seja, deduzir de modo operatório a partir de simples hipóteses, que são enunciadas verbalmente (lógica das proposições). Desse modo, a forma adotada pelas estruturas operatórias consiste em dissociar-se de seu conteúdo, daí, a possibilidade de raciocínio hipotético-dedutivo ou formal. As operações formais fornecem ao pensamento do ser humano o poder de destacá-lo e libertá-lo do real, ao permitir-lhe construir, a seu modo, as reflexões e teorias e possibilitar-lhe a livre atividade da reflexão espontânea.
Entretanto cada ser humano carrega em si reminiscências residuais primitivas que voltam a eclodir ante a ocorrência de situações traumáticas e estressantes, tais como, ansiedade, paixão, incerteza, sofrimento inconsolável, perigo iminente e insanidade. Dessa forma o ser humano será capaz de apelar para o sobrenatural e para a fantasia para aplacar a angústia e o desespero fazendo uso de mecanismos de defesa mantidos em estado de latência, mas susceptíveis de reascenderem todas as vezes que ocorrer uma ruptura no equilíbrio funcional da personalidade. É desta forma que surpreendemos o irreal e ilógico no conteúdo e nas formulações do pensamento. Tais atitudes mentais são consideradas uma espécie de regressão da personalidade, onde vemos surgir toda uma simbologia ancestral dos estágios mais remotos da evolução psicológica da espécie humana.
Quando se perde a capacidade de discernir a distinção entre fantasia e realidade estamos diante das patologias do pensamento classificadas como: pensamento supervalorizado, delirante, obsessivo ou fóbico. Jaspers[3] define o Delírio com sendo um juízo patologicamente falseado e que deve, obrigatoriamente, apresentar três características:
1. Uma convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável com impossibilidade de sujeitar-se às influências de correções quaisquer, seja através da experiência ou da argumentação lógica;
2. Um pensamento de conteúdo Impenetrável e incompreensível psicologicamente para o indivíduo normal;
3. Uma representação vivencial sem conteúdo de realidade que não se reduz à análise dos acontecimentos vivenciais.
Como é possível, e até normal, admitir a existência de Idéias Delirantes quando um lavrador comum declara que se transformou no chefe da rede de espionagem de uma grande potência, por meio da hipnose dos espíritos, mas não desconfiarmos de delírio quando alguém, muito religioso, se julga convocado por uma voz divina dentro de sua cabeça a ajudar os pobres ou matar todos os infiéis ou que permanecendo de joelhos ao dizer certas palavras alguns acontecimentos podem se realizar ou deixar de se realizar. Todos nós tendemos a desenvolver ficções reconfortantes úteis para proporcionar apoio e segurança à personalidade. Aparentemente, a psique humana sempre desenvolveu ou adotou crenças bem elaboradas num esforço para satisfazer necessidades íntimas. A construção de crenças fantasiosas confortadoras como proteção contra a ansiedade e a insegurança, tem ocorrência universal. Este é o propósito oculto dos nossos contos de fadas, das narrações épicas de pessoas poderosas, das mitologias antigas e modernas e ainda das novas crenças em alienígenas, seres não humanos e não divinos com poderes alem da imaginação. O que caracteriza fundamentalmente o delírio é o seu aspecto irredutível, característica essa muito próxima ao que encontramos nas religiões nominado de Fé. O delirante não se deixa influenciar nem pela experiência, nem por argumentações lógicas e esse é, acima de tudo, o ideal do homem de Fé, nunca se deixar abalar pelo que quer que seja. A Idéia Delirante, ou Delírio, espelha uma verdadeira mutação na relação eu-mundo e se acompanha de uma mudança nas convicções e na significação da realidade que coloca a pessoa num estreitíssimo corredor de possibilidades, numa quase ausência de livre arbítrio.
Contudo não é possível dizer que é normal e até desejável que a pessoa tenha seus pensamentos exclusivamente atrelados ao concreto e ao real, isso seria mais uma limitação imposta ao pensamento, fazendo-o incapaz de afastar-se do absolutamente concreto e leva o nome de Concretismo, que também é uma alteração da forma do pensamento. Trata-se de uma modalidade especial de alteração da forma do pensamento, que consiste na incapacidade do indivíduo para fazer a distinção entre o simbólico e o concreto. Ou seja, ele sempre se refere à sensação e se opõe à abstração. Falta ao concreto a independência da realidade para abstrair-se, pois o concreto está sempre escravizado pelo fenômeno material e o objeto do pensar é sempre o mesmo objeto da percepção. Portanto, o conceito de concreto exprime sempre um objeto particular determinado e sensorialmente percebido.
Assim achegamos a que, normal é a capacidade do pensamento, de lidar com a fantasia e lidar com o concreto, de maneira livre e autônoma. O ser humano normal deve ter autonomia e capacidade de passar voluntariamente de uma forma à outra e, principalmente, deve saber claramente onde começa um tipo de pensamento e termina o outro.
“Há apenas dois mundos - o seu mundo, que é o mundo real, e outros mundos, a fantasia. Mundos como este último são mundos da imaginação humana: a realidade, ou a falta dela, não é importante. O importante é que eles estão lá. Esses mundos proporcionam uma alternativa. Proporcionam uma fuga. Proporcionam uma ameaça. Proporcionam sonhos e força. Proporcionam refúgio e dor. Eles dão significado ao seu mundo. Eles não existem, então são tudo o que importa. Você entende?”[4]
“Nós precisamos de deuses - Tor, Zeus, Krishna, Jesus ou, bem, Deus nem tanto para adorá-los ou nos sacrificarmos por eles, mas porque eles satisfazem nossa necessidade — diferente daquela de todos os outros animais - de imaginar um significado, um sentido para nossas vidas, para satisfazer nossa ânsia por acreditar que a confusão e o caos da existência cotidiana, afinal, realmente levam a algum lugar. E a origem da religião e também da arte de contar histórias - ou não são elas a mesma coisa? Como disse Voltaire a respeito de Deus: se ele não existisse, seria preciso inventá-lo.” Frank McConnel[5]
Existe uma maneira saudável de lidar com nossas necessidades de significado e conforto. Adotar o caminho da filosofia talvez seja uma forma de adquirir significado, mas com certeza filosofia não traz conforto. A ficção é um bom caminho que traz muito significado e algum conforto e satisfaz, pelo menos para algumas pessoas, a grande necessidade de fazer parte de algo. Religião, a meu ver, não é um caminho saudável. Resolver nossos problemas com base em idéias que não detém corroboração nem prova é normal ante a falta de opção, mas manter-se nessa idéia mesmo em confronto com as evidências em contrario é patológico e não é por um comportamento ser adotado pela maioria que ele possa ser considerado saudável. A religião e a arte de criar estórias têm a mesma origem e como todos os personagens do mundo da fantasia e dos sonhos os deuses vivem no sonhar.

[1] DAWKINS, R. Deus, um Delírio. Companhia das Letras, 2006.
[2] PIAGET, J. A psicologia da criança. Ed Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
[3] JASPERS, K. - Psicopatologia General. Buenos Aires: Editorial Beta, 1963.
[4] GAIMAN, N. Os Livros da Magia. DC Comics. 2004.
[5] GAIMAN, N. & KRAMER, E. Sandman: O Livro Dos Sonhos vol.1. São Paulo: Conrad, 2004.

sábado, 4 de julho de 2009

O macaco pelado

Polegares opositores, um grande cérebro, a capacidade de criar símbolos. Essas são as características mais marcantes do Homo sapiens? Ou seria sua, imerecida e pretensiosa, suposta sapiência [1] a característica que torna o homem único? Bem poderíamos afirmar que são todas essas grandes e pretensiosas qualidades que tornam o homem único e inestimável para a “mãe natureza”.


Mas olhemos isso mais de perto. Os chipanzés têm polegares opositores, é um simples detalhe que faz com que suas palmas sejam longas e eles não possam fazer o tão aclamado movimento de pinça. Os ursos panda também têm polegares opositores especialmente para segurar bambu, é claro, afinal é a única coisa que eles sabem fazer. Então polegares opositores não são lá uma grande novidade na natureza, nem uma aberração inexplicável sem uma utilidade que seja inerente ao ser humano.

Definitivamente o do elefante é maior. No que diz respeito ao cérebro e a outras dimensões corporais nós não somos campeões em nada, mesmo dentro de nossa categoria, ou seja, os primatas, se levarmos em consideração a dimensão corporal o cérebro do chipanzé e principalmente dos bonobos perde por pouco.

Essa é boa, eu ouvi de um professor de filosofia: Capacidade de criar símbolos. Primeiro não há como afirmar que os humanos são os únicos a fazer isso, não há evidencias a esse respeito, mas como dizia meu grande amigo Carl Sagan “A ausência de evidência não significa evidência de ausência." [2]. Segundo, essa característica pode ser apenas uma propriedade emergente de um sistema cognitivo e não ter nada a ver com os seres humanos em especial.

Quanto a sapiência, não vou nem falar nada... A maneira como tem lidado com o mundo e uns com os outros já demonstra quanta sabedoria os humanos têm.

Existe, no entanto, uma característica bastante peculiar no ser humano que o destaca de todos os outros animais, não é uma característica pomposa como a capacidade de criar símbolos nem versátil como o movimento de pinça, nem tão evolutivamente significativa como um cérebro proporcionalmente grande. Contudo é uma característica bastante visível e por outro lado pouco notada. Caberia até perguntar: vocês já notaram que os humanos não têm pêlos? Isso mesmo pêlos, mais precisamente uma pilosidade densa cobrindo todo o corpo, como todos os outros animais têm. Ah é claro, nem todos, mas é interessante analisar essas exceções, elas são significativas.

Abandonar os pêlos é uma medida drástica e só foi adotada por mamíferos que mudaram radicalmente seu modo de vida. “Os morcegos foram obrigados a perder o pêlo das asas, mas conservam-nos no resto do corpo, de modo que não podem ser considerados uma espécie pelada. Alguns mamíferos escavadores — como a toupeira pe­lada, o oricterope sul-africano e o tatu sul-americano, por exemplo — reduziram o respectivo revestimento piloso. Os mamíferos aquá­ticos, como as baleias, golfinhos, porcos-marinhos, peixes-boi, dugon-gos e hipopótamos, também se tornaram pelados para viver na água. Mas o revestimento piloso continua a ser regra entre os mamíferos tí­picos, que vivem na superfície, quer corram pelo chão, quer trepem pelas árvores. Salvo os gigantes anormalmente pesados, como os ri­nocerontes e elefantes (com problemas de alimentação e arrefeci­mento muito particulares), o macaco pelado é o único que não tem pêlos, entre todos os milhares das espécies mamíferas terrestres, que são hirsutas, peludas ou feupudas.” [3]

Daí ou nós somos uma espécie subterrânea, ou somos aquáticos. Dado o recente gosto dos humanos por viver em tocas cada vez mais profundas e sua fuga constante do sol e do céu eu apostaria na primeira opção, mas isso é só uma aposta minha.

A grande questão sobre os humanos é que ninguém sabe para o que serve um ser humano. Este artigo foi feito num tom, digamos, leve, mas expressa uma questão bastante profunda de tentar encontrar o que vem a ser um ser humano e quais são suas principais características, pelo menos no que toca a biologia, que pode ser e será sua parte mais palpável. Mas se nosso intelecto nos permitir, iremos além disso, em busca da humanidade.

Cássio Silveira Gomides 12/08/2008



[1] TOYNBEE, Arnold. A humanidade e a mãe terra: uma historia narrativa do mundo. Trad: Helena Maria Camacho Martins Pereira e Alzira Soares da Rocha. 2 ª Ed. – Rio de janeiro. Guanabara. 1987. (pg. 42)

[2] SAGAN, Carl. Mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Trad: Rosaura Eichemberg – São Paulo: companhia das letras. 1996.

[3] MORRIS, Desmond. O macaco nu: um estudo do animal humano. Trad: Hermano Neves. 8ª Ed. – Rio de Janeiro. Record. (pg – 13-14).

sábado, 27 de junho de 2009

Hemingway o parisiense


É sempre um prazer ler um bom livro. E se o livro é de Ernest Hemingway, o prazer é redobrado. E se o livro fala de Paris ,estamos nos aproximando perigosamente de um lugar na linguagem que só pode ser descrito por um "Ernest Hemingway". É precisamente isso que ocorre com esse livro magnífico: "Paris é uma festa". Esse livro descreve como nenhum outro um período estranho da vida do autor e da história do mundo em que vivemos. Um tempo de virada de maré na história a que tristemente estamos acorrentados.

Acabei de terminar de ler e devo confessar que a tranquilidade com que ele escreve e a maneira precisa e cortante com que ele aborda qualquer assunto, desde uma guerra até sua própria vida doméstica, com uma riqueza de detalhes sem par - porém, sem ser prolixo - faz dele sem sombra de dúvida o melhor escritor americano de todos os tempos. Hemingway é um escritor absurdo, é um gigante das pequenas coisas é um mestre da aquarela literária.

De uma certa forma e num sentido estranho, ele é um escritor realista, um sujeito que começou como jornalista e enfim se voltou para o que é realmente importante, o que vai além da notícia do dia, e de fato cria todas as notícias: o interesse humano e sua complexa simplicidade. Porém, o realismo de Hemingway é permeado de uma luz... é bem isso. Uma luz brilhante num céu de baunilha numa primavera amena.

Para finalizar, uma das pérolas do livro: A inocência é a mãe dos piores pecados.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Instinto

Instinto*

Substantivo masculino


1. Impulso interior que faz um animal executar inconscientemente atos adequados às necessidades de sobrevivência própria, da sua espécie ou da sua prole.


2. Padrão inato, não aprendido, de comportamento, comum aos membros de uma espécie animal. Ex.: as abelhas fazem suas colméias sempre iguais por instinto.


3. (Psicologia) Esquema de comportamento herdado, próprio de uma espécie animal, que pouco varia de um indivíduo para outro ou no tempo e que parece cumprir uma finalidade.

4. (Derivação) Freqüentemente. Impulso interior, independente da razão e de considerações de ordem moral, que faz o indivíduo agir, esp. se a ação é anti-social.


5. Faculdade de sentir, pressentir, adivinhar, que determina certa maneira de pensar, de agir; intuição. Ex.: meu instinto está me avisando para ficar hoje em casa.


6. Tendência natural para alguma atividade; talento, aptidão, inclinação.


7. (Psicanálise). Mesmo que pulsão.


Podemos considerar instinto como uma resposta, inata, imutável e automática a determinada situação.


O ser humano não faz a menor idéia do que seja um instinto seu. Algo que, de fato, podemos, com segurança, atribuir a uma resposta instintiva. Mesmo respostas que podemos considerar instintivas por natureza não podem ser assim consideradas, como, por exemplo, o ato de fugir diante de um perigo imediato. Nós humanos necessitamos aprender a considerar algo como perigoso, caso contrário não o consideramos assim. Ao contrário de nossos irmãos mamíferos que, em sua maioria, ao nascer estão plenamente aptos a distinguir o que é perigoso do que não é. A espécie humana não tem um comportamento padronizado que pode ser considerado herdado e que se aplique a toda a espécie.

A resposta pulsional de Freud é no máximo uma atenuação do instinto, ao criar o inconsciente ele tira a responsabilidade última do homem de seus atos, justificando o comportamento desajustado com uma falha que está além do indivíduo saná-la. E com certeza a pulsão não pode ser estendida a toda a espécie. Pulsionar uma atitude nada mais é do que justificar a revolta pessoal contra a pressão exercida pela educação no individuo.

Revolta essa que se bem analisada pode ser plenamente consciente. Exatamente como são conscientes os atos instintivos daqueles indivíduos que querem seguir seus instintos, mas não conseguem sair de seu emaranhado teórico-conceitual e decidir o que vêm a ser suas vontades instintivas.


O colapso ecológico e social que tem acometido o planeta, causado pela espécie humana, provoca em muitas pessoas o desejo de se tornar mais natural, de agir mais de acordo com seus instintos. Essa vontade se manifesta em diversas áreas do cotidiano, mas age principalmente no que eles poderiam chamar de instinto sexual, que como todos os outros é apenas uma concepção do que deveria ser esse instinto, e após as descobertas da primatologia comparada, essa concepção tem se tornado cada dia mais simiesca, numa tentativa de justificar suas vontades.


O que ocorre ao tentarmos dar vazão aos instintos, visto não existir um instinto que pode ser considerado humano, é que em lugar de dar vazão a instintos reais seguimos o que pensamos ser instintos. Formulamos uma concepção de instinto de acordo com o que acreditamos ser a coisa mais natural a fazer e fazemos. Neste ato podemos perceber a contradição fundamental dessa atitude. Pensar o instinto é não ser instintivo.


Da mesma forma a expressão “reprimir os instintos” é uma contradição, já que o instinto é, por definição, o que não pode ser reprimido. Justificar um ato de vontade com um instinto é não querer assumir a responsabilidade e as conseqüências de seus atos. É justamente isso que tem causado o colapso ecológico-social que temos vivido, já que, aparentemente, a espécie humana não pode deixar de agir de forma destrutiva e egoísta, porque esse parece ser um comportamento mais ou menos homogêneo na espécie.


Definir o que vem a ser vontade é assunto para outro artigo, mas a vontade do homem é soberana sobre seus atos e, a menos que haja erro, o que uma pessoa faz é exatamente o que quer fazer. Assumir essa vontade é a primeira atitude para o amadurecimento intelectual necessário tanto à espécie quanto ao indivíduo.


Como animais, é bastante provável que nós tenhamos instintos, e isso é óbvio, mas esses instintos são exatamente a parte de nosso comportamento que não questionamos. A parte que para nós não aparece. Ele está de tal forma incorporada à nossa vontade e ao nosso comportamento que é invisível. A espécie humana nunca deixou de agir de acordo com seus instintos, porém esses instintos não são, e já há bastante tempo, suficientes para suprir as necessidades humanas, e a parte substancial de nossas escolhas deve ser tomada conscientemente e com o único auxilio da razão.


Cássio Silveira Gomides


05/02/2008

*Acepções retiradas do Houaiss.